
Idosos podem ter menor oxigenação cerebral e muscular em exercícios
Estudo brasileiro identificou alterações no uso de oxigênio durante caminhada moderada, o que pode afetar desempenho físico e recuperação após o esforço
Por Fernanda Bassette, da Agência Einstein
O envelhecimento afeta não apenas a força e o condicionamento físico, mas também a maneira como cérebro e músculos utilizam o oxigênio durante a atividade física. A constatação é de um estudo brasileiro, publicado no Translational Journal of the American College of Sports Medicine.
Conduzida por cientistas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e da Universidade Estadual Paulista (Unesp), a pesquisa avaliou 40 pessoas fisicamente ativas: 20 jovens e 20 idosos. Metade da amostra era composta por homens e a outra, por mulheres. Todos caminharam por 10 minutos na esteira em intensidade moderada, enquanto os pesquisadores monitoravam, em tempo real, a oxigenação do cérebro e dos músculos.
“Temos investigado a oxigenação muscular durante o esforço físico já há algum tempo. Pensamos que compreender essa relação entre oferta e utilização de oxigênio, tanto do ponto de vista muscular quanto cerebral, pode nos permitir melhorar a prescrição de exercícios físicos para pessoas de diferentes perfis”, relata a professora Fúlvia de Barros Manchado-Gobatto, coordenadora do Laboratório de Fisiologia Aplicada ao Esporte da Unicamp e uma das autoras do estudo.
A equipe usou uma tecnologia chamada espectroscopia no infravermelho próximo (NIRS, sigla em inglês). O dispositivo utiliza feixes de luz infravermelha para acompanhar o comportamento da oxigenação em diferentes regiões do corpo, sem necessidade de exames invasivos. Os sensores foram colocados no córtex pré-frontal (área do cérebro relacionada a atenção, planejamento, tomada de decisões e controle dos movimentos) e em dois músculos: o vasto lateral, na coxa, mais exigido durante a caminhada, e o bíceps braquial, no braço, menos ativo durante a realização do movimento.
Nos voluntários adultos jovens, houve aumento progressivo da oxigenação cerebral ao longo do exercício. Já nos idosos, isso praticamente não aconteceu. “Percebemos o aumento da oxigenação no córtex pré-frontal nos jovens até o sétimo minuto de exercício e, nos idosos, esse aumento não foi diagnosticado”, detalha Manchado-Gobatto. “Isso quer dizer que há um prejuízo na chegada de oxigênio durante o exercício, sendo que essa oxigenação é importante para a tarefa ser planejada e executada com sucesso.”
O trabalho também encontrou diferenças importantes no funcionamento muscular. Nos mais jovens, houve aumento da chamada desoxi-hemoglobina no músculo da coxa, um indicador de que o oxigênio estava sendo efetivamente utilizado para gerar energia durante o esforço. Entre os idosos, essa adaptação foi muito menor. “A desoxi-hemoglobina é um indicativo do aproveitamento do oxigênio pelo tecido muscular. Os jovens têm maior possibilidade de utilização de oxigênio para suprir a demanda do exercício, enquanto os idosos não modificaram esse parâmetro na mesma medida”, explica a professora.
Isso pode ajudar a entender mecanismos do envelhecimento que já são observados na prática clínica. “O que a gente infere é que isso pode estar relacionado à perfusão vascular e também ao funcionamento das mitocôndrias, estruturas da célula responsáveis pelo uso do oxigênio”, especula a geriatra Erika Satomi, do Einstein Hospital Israelita. Com o envelhecimento, os vasos sanguíneos tendem a ficar mais rígidos e as células podem perder eficiência para transformar oxigênio em energia. “Quanto mais saudável e ativa é a mitocôndria, mais oxigênio ela consegue utilizar”, resume Satomi.
Outro achado foi a menor produção de lactato nos idosos após o exercício. Apesar de muitas vezes ser associado apenas à fadiga, o lactato também faz parte dos mecanismos de geração de energia do organismo. “Quanto mais intenso é o exercício físico, maior a produção de lactato pelo músculo. Esse metabólito é transportado para a corrente sanguínea para ser aproveitado como energia em outras partes. Nos idosos, a concentração de lactato pouco variou em relação ao repouso, mostrando uma ineficiência da via anaeróbia lática nesse grupo”, explica a pesquisadora da Unicamp.
Os testes também mostraram que os mais velhos apresentam recuperação mais lenta da oxigenação cerebral após o exercício. Segundo Fúlvia Manchado-Gobatto, isso sugere menor eficiência para retornar ao equilíbrio fisiológico depois do esforço.
A importância de se manter ativo
Esses resultados não devem ser interpretados como motivo para evitar atividade física — ao contrário. “É muito diferente uma pessoa que envelhece de maneira sedentária e uma que envelhece fazendo atividade física”, observa a geriatra. “O exercício aumenta a expectativa de vida, melhora o bem-estar, reduz risco de doenças cardiovasculares, diabetes, depressão e também diminui o risco de quedas.”
Além dos exercícios aeróbicos, atividades de força e resistência são fundamentais para os idosos, principalmente para preservar músculos e ossos. É importante que a prática seja individualizada, de acordo com as necessidades de cada pessoa. “Não existirá uma única recomendação para todos os idosos. Quanto mais envelhecemos, mais heterogênea essa população se torna”, frisa a médica do Einstein.
Fonte: Agência Einstein